14 setembro 2009

SER UM DIA

Se um dia eu puder ser eu...
Postar alvissaras e contornar a dor...
Se eu, ainda que, num recanto do tempo pudesse criar um canto
e cantar!

Ai! se encontrar -te eu pudesse e prolongar -te as linhas do ser,
tu serias um dia o meu rodopio e a brisa fresca que refresca o calor do Estio.

Se uma noite, no cimo do Ser, encantares uma alma
chama -me na alvorada e na espuma do mar.
Quero sentir e olhar, a minha sombra na Lua e pensar
que se um dia for,
Talvez, quem sabe, possa ir sem chegar.

CART 2388

Aos combatentes do Ultramar (1961/74)

Tombou. Está suspenso nas areias movediças de um chão perene.Lentamente ergue-se e avista uma sombra, reconhece um gesto, um sorriso íntimo,Uma permanência estranhamente incómoda.Avança o soldado na parada, cumpre o dever e grita, e tomba e esconde-se e mata E morre pela pátria.Lá está ele novamente, a mover-se inquietante no cenário de outrora, servindo a amizade aos olhos aterrados de um herói promovido a pináculos inertes e embevecidos de galanteios.De repente, cega-se a claridade e ouvem-se granadas, minas anti-pessoais e estilhaçam-se os pensamentos. Retalhos que nos contam uma história maior.Finalmente, movido pelo grito que inflama o ser, levanta-se bruscamente e observa aquele amigo de outrora… tão esculpido pelos anos, de olhar petiz, inalterado, mas escondido nos planaltos ou numa savana escaldante.O teu amigo permanece contigo num cenário recôndito, nos calabouços de uma memória atroz, ladeados por carrascos de altas patentes que se esqueceram de vos alimentar.Divide a tua sede e a tua fome com ele e permaneçam unidos nos aquartelamentos da vossa angústia, da vossa coragem, assaltados pelos rebentamentos assíduos que vos ensurdeceram, amputaram e impediram de repousar.

ANTROPO ÁFRICA

África...
o local de todos os olfactos, de inúmeros ruídos e de sabores multiplicados...
Foi aí que nas proximidades do Rift, na Planície de Olduvai ou, quem sabe, numa outra periferia do Sudeste africano, a nossa estirpe germinou.
Local ideal para surgir... livre, partilhado, mas livre... sem delimitações convencionais.
Uma savana, feras e vegetação esparsa... uma demanda à qual valeu a pena sobreviver.
Esse continente de mil cores que inspirou poetas, matou soberanos e apaixonou Homens... Essa Terra que foi disputada, que provocou Ultimatos e assistiu à chacina de tantos.
Esse Clima que deu vida a personagens de filmes fenomenais. Essa África... minha, tua ou nossa que ainda não despertou e que continua a embalar emoções extremas.
Essa vida que não conheço, mas que me chega nos sonhos e que se materializa no pensamento, que me desvenda a complexidade genética e me despe de pudores sociais e comunitários.

08 setembro 2009

GRITO

Ai quem me dera gritar!Romper caminhos novos, derrubar pessoas e furtar... alegria minha gente, que é tempo de mendigar! E quem não for capaz de rastejar, vender sonhos em troca de migalhas, não se há- de arranjar!Venham todos! Já aqui, toca a andar! Vamos lá a farejar, detonem a miséria e amputem os regaços das vossas mães.Toca a andar... Não quero cheirar ninguém!Anda cá, não me deixes. Preciso de agarrar, morder e rasgar!Este inimigo no escuro... não lhe consigo tocar! É medonho, não me deixa sonhar! Quero -o agarrar! Mas não consigo parar e fazer algo por mim.Ai! Que é triste! um asno a praguejar!Não consigo, que pena de mim!Pára de gritar! Esta perseguição impede -me de avançar e, por tanto medo ter, não sei como devo ser.